Feira do Queijo arranca em Seia com recado sobre Girabolhos e defesa do território
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Teve início este sábado, em Seia, a 49ª Feira do Queijo Serra da Estrela, certame que decorre até ao dia de Carnaval e que volta a afirmar o concelho como maior produtor nacional de queijo de ovelha. Na cerimónia de abertura, o presidente da Câmara, Luciano Ribeiro, aproveitou a ocasião para associar o evento às prioridades estruturais da região, colocando no topo das reivindicações a melhoria das acessibilidades rodoviárias e uma tarifa da água mais justa para o território.

Na cerimónia de abertura, o presidente da Câmara Municipal, Luciano Ribeiro, começou por recordar os “momentos difíceis” que o país e a região atravessam, na sequência das recentes tempestades, justificando a ausência do secretário de Estado da Administração Local, que, segundo referiu, se encontra no terreno junto dos municípios mais afetados.

Apesar do contexto, o autarca sublinhou que a feira deve ser vivida como “um momento de festa”, mas também de reconhecimento do setor primário e da pastorícia, base da fileira do queijo.

Perante um vasto conjunto de entidades civis, militares e institucionais, destacou a importância estratégica do setor agropecuário para o concelho e para a região da Serra da Estrela. “Não há queijo sem setor primário, sem pecuária, sem pastores”, afirmou, lembrando os apoios lançados pelo Município ao longo do último ano, em articulação com entidades do setor, para incentivar a pastorícia, apoiar a sanidade animal e reforçar as condições de higiene e segurança alimentar dos pequenos produtores.

Seia assume liderança na produção de queijo

Luciano Ribeiro destacou que o concelho é hoje “o maior produtor de queijo de ovelha do país e um dos maiores da Península Ibérica”, realidade que, disse, “acarreta uma responsabilidade maior”, não só pelo impacto económico e na criação de emprego, mas também por representar uma das principais bandeiras identitárias do concelho.

“É uma das nossas bandeiras, que levamos pelo país fora, pelo mundo fora, e que nos representa enquanto cultura da Serra da Estrela, mas também enquanto potencial económico”, sublinhou.

Apesar de o queijo ser o protagonista, o presidente da Câmara salientou a importância de promover outros produtos endógenos, como os enchidos, o pão, o mel e o vinho, num ambiente que junta produtores, restauração, revendedores e coletividades do concelho.

“O queijo é o rei, mas é toda a autenticidade da nossa terra que está aqui representada”, reforçou, apelando à valorização de toda a cadeia produtiva, “desde o campo e da pastorícia, do pastor à queijaria e à indústria do queijo”.

Lã e setor primário no centro do debate

O autarca recordou ainda a realização, no dia anterior, de um debate sobre a valorização da lã, com a presença do secretário de Estado da Agricultura, considerando que o produto, outrora motor de desenvolvimento industrial em Seia, enfrenta hoje novos desafios.

“Hoje tornou-se um problema, quando foi uma riqueza e motivo de inovação”, afirmou, defendendo soluções que permitam recuperar o valor económico da lã no contexto da economia de montanha.

Luciano Ribeiro recordou que Seia foi um dos primeiros concelhos do país a ter eletricidade graças à indústria ligada à lã, defendendo agora uma nova estratégia de valorização deste recurso tradicional, integrado no ciclo produtivo da pastorícia.

Recado sobre Girabolhos e prioridades regionais

Na sua intervenção, o presidente da Câmara abordou também o debate em torno do novo anúncio da construção da Barragem de Girabolhos, afirmando que a região só voltou à agenda nacional “quando houve um problema no litoral”.

Sem deixar de afirmar a solidariedade do concelho, Luciano Ribeiro reiterou que a Serra da Estrela sempre foi solidária com o país, fornecendo água e produtos, mas exige reciprocidade nas prioridades de investimento.

“Para uns terem os pés secos, não têm que ficar os outros com os pés molhados”, declarou, defendendo equilíbrio nas decisões nacionais e respeito pelas necessidades estruturais da região.

Entre essas prioridades, apontou a melhoria das acessibilidades rodoviárias e criticou o preço da água em alta praticado pelas Águas de Portugal, referindo que a empresa “explora na região mas consegue vender mais barato longe da região do que no território onde capta esse recurso”.

“O dinheiro que pode ir para um lado também pode ir para o outro. Para nós, a prioridade seria nas acessibilidades rodoviárias”, acrescentou.

Na presença dos autarcas de Gouveia e Fornos de Algodres, o presidente defendeu firmeza na defesa dos interesses da região, para que “a solidariedade que nos pedem possa ter reciprocidade na resolução dos problemas que todos os dias sentimos”.

Quatro dias de celebração e identidade

Apesar do tom reivindicativo em matérias estruturais, o autarca apelou a que os próximos quatro dias sejam vividos em ambiente de celebração, valorizando produtores, coletividades e tradições.

“Sejamos capazes de celebrar as nossas tradições, a nossa inovação e os nossos produtos endógenos”, afirmou.

A sessão terminou com o tradicional brinde e a prova do maior queijo de ovelha produzido na edição anterior da feira, seguindo-se a visita aos expositores instalados no Mercado Municipal e na área envolvente.

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