Lã da Serra da Estrela: de resíduo ignorado a recurso estratégico em debate nacional
Num momento em que o mercado internacional valoriza cada vez mais matérias-primas naturais e sustentáveis, a lã portuguesa continua, paradoxalmente, a ser tratada como resíduo. É este o ponto de partida do debate “Lã: De resíduo a recurso. Como fechar o ciclo?”, que terá lugar a 13 de fevereiro, em Seia, no âmbito da 49ª Feira do Queijo Serra da Estrela.
A iniciativa, promovida pela Rede de Aldeias de Montanha e pelo Município de Seia, reúne no auditório da Casa Municipal da Cultura, pelas 09:30h, decisores políticos, empresários, académicos e produtores num encontro que pretende ir além do diagnóstico e apontar soluções concretas para um dos maiores desafios da economia de montanha: tornar a lã novamente rentável.
o encontro reunirá decisores políticos, empresários, académicos e produtores para discutir a soberania produtiva, a viabilidade económica da fileira e os desafios estruturais que continuam a comprometer a valorização da lã nacional.
O ponto de partida do debate, moderado pela jornalista Ana Rodrigues Ribeiro, do canal Conta Lá, assenta num paradoxo: num contexto internacional de crescente procura por matérias-primas sustentáveis, a lã portuguesa continua, em muitos casos, a ser tratada como resíduo, devido à ausência de infraestruturas e de um modelo integrado de transformação. O objetivo do encontro passa por “identificar soluções operacionais que permitam fechar o ciclo produtivo, assegurando a rentabilidade da pastorícia e posicionando a lã como um ativo estratégico de elevado valor acrescentado para a região da Serra da Estrela e para o país”, sustenta a organização.
No plano das políticas públicas, o secretário de Estado da Agricultura, João Moura, abordará a lã enquanto recurso estratégico para a sustentabilidade da pastorícia. Já Jorge Brito, presidente da Assembleia Geral da Rede de Aldeias de Montanha, refletirá sobre o modelo de desenvolvimento regional, alertando para o risco de promover uma narrativa associada à lã e ao turismo de experiência sem garantir a consistência da fileira produtiva.
A competitividade e a logística industrial estarão igualmente em destaque, com empresários do setor a identificarem os principais entraves operacionais, nomeadamente a ausência de infraestruturas críticas, como um lavadouro local de lã.
Um dos momentos centrais será dedicado à eventual criação de uma certificação específica para lãs de raças autóctones portuguesas, com enfoque particular na Lã da Raça Serra da Estrela e no impacto que essa certificação poderá ter na valorização económica e territorial da região.
A inovação e a valorização do recurso contarão com o contributo da investigadora e empreendedora Rosa Pomar, em articulação com o Centro de Competência da Lã e o Museu dos Lanifícios da Universidade da Beira Interior, analisando de que forma o conhecimento técnico, a preservação da memória e as exigências do mercado contemporâneo podem potenciar as raças autóctones.
Na base da cadeia de valor, a ANCOSE destacará a importância da dignificação económica do produtor e da melhoria da seleção da lã no terreno, enquanto o CEARTE abordará a capacitação necessária para o surgimento de novas microunidades de transformação, garantindo que o património têxtil artesanal se mantém como um pilar ativo da economia regional.
O encontro afirma-se, assim, como um compromisso coletivo para que a lã da Serra da Estrela deixe de ser encarada como um passivo ambiental e se consolide como motor de uma bioeconomia regional mais forte, competitiva e sustentável.
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