A economia digital – a sociedade em rede – “o novo petróleo”
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Há dias, enquanto preparava um trabalho académico sobre as redes sociais, deparei-me com um artigo do investigador Joaquim Fialho intitulado “para onde nos levam as redes sociais”.

A curiosidade matou o gato ou a gata, quando dei por mim estava a refletir sobre o assunto.

A comunicação é a minha área e o meu ex-líbris, para o bem e para o mal. Como em tudo na vida, há ética no uso que lhe damos. Reconheço as potencialidades das redes sociais e das tecnologias de informação, mas tenho de concordar com o autor. Segundo este, expomo-nos de forma irracional e irrefletida e a energia que move estas plataformas são os nossos dados, a que chamou de “o novo petróleo”.

Vivemos demasiado ocupados na construção do ser perfeito ou virtualmente feliz, alimentando um ego esfomeado e avido por protagonismo, quando todos sabemos que esta imagem é falsa. Não há tempo para refletir nem para pensar e faz-se pouco caso do alcance das fotos e vídeos que são publicados.

Esta irreflexão irracional não consegue separar os assuntos que são do domínio privado dos assuntos que são do domínio público – por dois minutos de atenção revelam-se intimidades e fragilidades emocionais.

Esta irracionalidade também nos leva à procura da fama a qualquer preço. Outrora a fama apontava para a grandeza, mas hoje qualquer um pode ser famoso, pois a mediocridade é uma vantagem.

Sabemos tudo, a informação está à distância de um clique, temos muitos amigos, e uma rede que nos liga a todos, mas que nos aprisiona em solidão porque não sabemos criar laços e tudo é superficial, como diz o autor “vemo-nos mais, conhecemo-nos menos”!

Nesta sociedade em rede, a mentira corre mais que a verdade e os segredos que antigamente levavam meses de investigação, hoje encontram-se de mão beijada e facilmente acessíveis – registos gratuitos – base de dados – informação para os donos das plataformas.

 

Mas, não é só o comportamento da sociedade que é preocupante, a própria evolução tecnológica trouxe também muita incerteza e desconfiança com limites incalculáveis. Para muitos, isto é uma oportunidade!

O uso que fazemos das plataformas e que pensamos ser gratuito, tem um preço – os nossos dados. Aqui nascem as novas formas de predação.

Joaquim Fialho faz analogia entre os dados pessoais e o petróleo, afirmando que as informações pessoais dos utilizadores são o “novo petróleo” na economia digital, uma vez que a recolha de dados é bem mais vasta do que o necessário para a finalidade pretendida.

Ligando os dados ao algoritmo é possível obter exploração comercial, manipulação política e social e invasão massiva da privacidade.

O funcionamento dos algoritmos é um segredo bem guardado pelos donos das plataformas. Não havendo acesso nem fiscalização, nem o céu é o limite.

O escândalo da Cambridge Analytica é um excelente exemplo.

A Cambridge Analytica, obteve informações pessoais de milhões de utilizadores do Facebook sem o seu consentimento. As informações foram utilizadas para construir perfis psicológicos detalhados dos utilizadores, com o objetivo de influenciar o seu comportamento eleitoral, nomeadamente no referendo do Brexit no Reino Unido e durante a campanha presidencial dos EUA, em 2016.

Um investigador desenvolveu uma aplicação chamada “This Is Your Digital Life”, apresentada como um teste de personalidade. Embora cerca de 270 mil pessoas tenham consentido voluntariamente em usar a aplicação, esta recolheu dados não apenas dos utilizadores que fizeram o teste, mas também dos seus amigos no Facebook, sem que estes soubessem. Através deste método, a Cambridge Analytica teve acesso a informações de cerca de 87 milhões de utilizadores.

Com base nos dados recolhidos, a Cambridge Analytica criou perfis psicológicos complexos dos utilizadores, avaliando as preferências, valores e comportamentos. Isto permitiu à empresa segmentar grupos específicos de eleitores com mensagens personalizadas que apelavam diretamente às suas emoções, medos e desejos.

A empresa utilizou os perfis para criar campanhas publicitárias personalizadas e segmentadas, conhecidas como microtargeting. Os anúncios tinham como objetivo influenciar a opinião e o comportamento dos utilizadores de forma subtil, em alguns casos através de desinformação ou de mensagens emocionais polarizadoras. Os utilizadores eram expostos a conteúdos diferentes com base no seu perfil psicológico, o que moldava as suas decisões eleitorais sem que se apercebessem do grau de manipulação.

Este escândalo prejudicou gravemente a reputação do Facebook, levantando preocupações sobre a forma como a plataforma tratava os dados dos seus utilizadores e a falta de transparência sobre como estes dados eram partilhados com terceiros.

O Facebook perante a perda de utilizadores para outras plataformas, ilusoriamente mais confiáveis, adaptou-se para servir melhor as empresas, mas, as operações mercadológicas continuam a viver de dados das pessoas e instituições, pelo que fica a interrogação, houve melhoria na segurança de dados?

Paradoxalmente, há um fanatismo pelo RGPD conduzido pela ignorância que levam as empresas e instituições a ações “para inglês ver”, que absorvem dinheiro e tempo, mas que em termos práticos não protegem os dados das pessoas de maneira alguma.

Os recentes ciberataques a bases de dados não foram parados por papéis assinados ou formulários preenchidos ou uma companhia de seguros não contactar um cliente seu que foi testemunha de um acidente que prejudicou outro seu cliente, por causa do RGPD, deixando o culpado escapar, são pesadelos diários.

No passado 10 de Outubro, as infra-estruturas informáticas da AMA – Agência para a Modernização Administrativa foram alvo de um ciberataque, tendo a entidade informado que “se encontrava com uma disrupção na sua rede em virtude de um ataque informático (ransomware) e, por isso, esteve, preventivamente, indisponível o acesso a diversas plataformas e serviços digitais”.

Há dúvidas importantes que ainda permanecem. Que consequências pode ter este incidente e se realmente houve acesso e roubo dos dados de todos nós?

A AMA avisou que devem ser ignorados pedidos de informações pessoais para recuperação de credenciais ou para aceder a serviços, já que a AMA não as irá solicitar por qualquer canal, tendo consciência da oportunidade de haver um saque de dados por parte de criminosos a cidadãos menos prevenidos e avisados.

Seja qual for a fonte, redes sociais, ciberataques ou outra, neste momento, os nossos dados andam a circular livremente pelo mundo, são verdadeiros poços de petróleo. Aquele que tiver mais engenho em explorá-los fica rico e pode ascender na cadeia dos predadores.

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