Seia só aceita Barragem de Girabolhos com contrapartidas e apela à solidariedade nacional
O Município de Seia manifesta abertura à construção da barragem de Girabolhos, mas deixou claro que o projeto só será aceite se for acompanhado de contrapartidas concretas para o território, nomeadamente ao nível das acessibilidades e do investimento público na região.
Luciano Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Seia, afirmou que o município reconhece as vantagens da barragem, em particular no reforço das reservas de água e na proteção contra cheias a jusante, mas considera inaceitável que o concelho volte a ser chamado apenas quando estão em causa interesses externos. Sublinhou, contudo, que a solidariedade nacional “não pode ser sempre para o mesmo lado” e recordou que o próprio Programa Regional de Ordenamento do Território do Centro (PROT-C) associa a construção de Girabolhos não apenas à gestão da água e à redução do risco de cheias, mas também à necessidade de melhorar as acessibilidades na região.
“O projeto pode ter vantagens para o território, mas ao que parece tem mais vantagem para outros territórios”, afirmou Luciano Ribeiro, lembrando que a barragem é hoje encarada como uma questão de proteção civil para Coimbra, nomeadamente face ao risco de inundação da futura estação ferroviária de alta velocidade.
O presidente da Câmara ironizou com a situação, recordando que “a primeira regra do planeamento é não construir em zonas inundáveis”, criticando o facto de se exigir agora a contenção de águas a montante para proteger investimentos feitos a jusante.
“Só se lembram de nós quando é para nos explorar”, afirma Luciano Ribeiro
O Município de Seia está disposto a ser solidário, desde que essa solidariedade seja acompanhada de investimentos estruturais que a região espera há décadas. “Só se lembram de nós quando é para nos explorar”, lamentou.
A posição do autarca assenta num princípio claro: a exploração de recursos naturais só será aceite se fizer parte de um pacote mais amplo de investimentos para a região, com destaque para as acessibilidades rodoviárias. Entre as exigências apontadas estão a concretização do IC6, ligando Tábua, Seia e Covilhã, e do IC37, entre Seia, Nelas e Viseu, sendo este último fundamental para retirar o tráfego pesado que atravessa as povoações da EN231.
“Há décadas que Seia espera por investimentos prometidos. Não temos um único quilómetro novo de estrada. Se existisse verdadeira solidariedade, esses projetos já estariam concretizados”, afirmou.
O edil não esconde o ceticismo quanto à execução da barragem, lembrando que o projeto foi abandonado por não ser viável do ponto de vista hidroelétrico e que a sua concretização dependerá agora exclusivamente de fundos nacionais. Ainda assim, garante que o Município será “aliado de primeira linha” se houver vontade política para responder às necessidades da população local. “Se quiserem tirar alguma coisa do nosso território, somos solidários, mas deem-nos também o mínimo daquilo que a nossa região precisa e carece”, concluiu.
Seia reclama investimento e acessibilidades
A construção da barragem de Girabolhos volta, entretanto, a estar no centro do debate nacional como uma das soluções estruturais para a prevenção de cheias na bacia hidrográfica do Mondego e para uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos, num contexto de alterações climáticas cada vez mais extremas.
A barragem integra agora a estratégia nacional “Água que Une”, apresentada pelo Governo, que prevê um conjunto alargado de investimentos na gestão eficiente da água em Portugal, estando prevista a realização de um estudo para avaliar a viabilidade da sua construção, suspensa desde 2016. Ainda assim, o Município de Seia alerta que, sem compromissos claros em matéria de acessibilidades e desenvolvimento regional, a aceitação do projeto continuará condicionada.
