Faleceu António Júlio Vaz Saraiva, artista e figura marcante da cultura senense
Publicidade

Faleceu António Júlio Vaz Saraiva, artista plástico, ilustrador, cartoonista e fotógrafo, uma das figuras mais marcantes da vida cultural e artística de Seia, onde nasceu a 9 de maio de 1928 e onde desenvolveu grande parte do seu percurso pessoal e criativo.

Desde muito cedo revelou uma profunda sensibilidade para as artes. Aos 16 anos, ingressou na Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela (EHSE) como desenhador, tendo construído uma carreira sólida que o levou a assumir as funções de chefe da secção de desenho. Paralelamente, manteve uma intensa atividade artística e cultural ao longo de várias décadas.

Homem de múltiplos interesses, foi também caçador e pescador amador e destacou-se como exímio praticante de ténis de mesa, representando o Seia Futebol Clube e a equipa da EHSE.

Ainda muito jovem, com a colaboração de amigos, foi fundador, desenhador e editor do jornal “O Viriato”, editado em papel heliográfico, cuja primeira edição data de 31 de março de 1946. Vendido aos domingos à saída da missa, o jornal destinava as suas receitas a apoiar uma equipa de futebol com o mesmo nome, num claro exemplo do seu espírito cívico e associativo.

A sua criatividade ficou patente nos inúmeros trabalhos desenvolvidos nas áreas da ilustração, desenho, pintura, fotografia, gravura em madeira e linóleo, bem como em quadros em papel de estanho. Em 1964, elaborou o Mapa Turístico da Serra da Estrela para a então recém-inaugurada Residência Serra da Estrela, trabalho que ainda hoje circula em diversos estabelecimentos comerciais da cidade.

Ilustrou capas de revistas e livros e foi autor, em parceria com Fernando de Melo Sequeira Mendes, das obras Figuras e Figurões e Seia, Terra que Canto, tendo assinado não só as caricaturas e gravuras como também as capas. Em 2004, apresentou o livro infantil para colorir A Minha Freguesia, do qual foi autor dos textos e dos desenhos.

Profundamente ligado à sua terra natal, dedicou grande parte do seu trabalho à história e ao património de Seia, traduzidos em desenhos de monumentos, ruas e casas antigas. Dessa dedicação resultou, em junho de 2009, a publicação do livro Alminhas do Concelho de Seia.

Colaborou como cartoonista em vários órgãos de comunicação social, entre os quais A Voz da Serra, Porta da Estrela, Viseu, 25 de Abril e Jornal de Santa Marinha, criando um vasto espólio de cartoons de carácter político, marcados por um fino sentido de humor e apurado espírito de observação. Foi igualmente um apaixonado pela fotografia, atividade que praticou desde os anos 40, quer como fotógrafo quer como colecionador, reunindo ao longo de décadas um importante acervo fotográfico.

Assinando os seus trabalhos com as iniciais J.V.S., António Júlio Vaz Saraiva esteve sempre disponível para colaborar com entidades e coletividades locais, participando em diversos projetos de valorização e defesa do património histórico. Entre outros contributos, colaborou na reconstrução do pelourinho de Loriga, em 1998, e no estudo do primitivo pelourinho de Seia, trabalhos que ajudaram a esclarecer a sua forma original.

Participou em várias exposições coletivas de desenho e fotografia e esteve presente em concursos regionais e nacionais de fotografia. Concebeu ainda o painel de azulejos da Fonte Nova, no início da Avenida 1º de Maio, e ilustrou diversas obras de autores senenses.

Em reconhecimento público do seu percurso e do contributo ímpar para a promoção e valorização de Seia, a Câmara Municipal distinguiu António Júlio Vaz Saraiva, a 3 de julho de 2009, com a Campânula de Mérito Municipal – Mérito e Dedicação, no âmbito das comemorações do Feriado Municipal. Em 2015, foi igualmente homenageado pelos artistas senenses na abertura do ARTIS XIII – Festival de Artes Plásticas de Seia, numa distinção que sublinhou o reconhecimento da comunidade artística local pelo seu legado cultural.

Com a sua morte, Seia perde um dos seus mais dedicados intérpretes visuais e defensores da memória local, ficando um vasto legado artístico e cultural que continuará a testemunhar o seu amor pela terra natal.

O corpo está em câmara ardente na Capela Mortuária da Igreja Nossa Senhora do Rosário. As cerimónias fúnebres irão realizar-se esta segunda-feira, 5 de janeiro, pelas 14:30h, findas as quais irá a sepultar no Cemitério Municipal de Seia.

Partilhe este artigo...