Seia, cidade moderna
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Aproveitando uma trégua que a chuva me deu, neste bem molhado outono de 2023, fui dar um passeio pela minha cidade. A parte moderna de Seia está a ficar irreconhecível, depois de irreconhecível também já estar, há muitas décadas, o seu centro histórico, que praticamente não existe. A Avenida 1º de Maio, juntamente com o antigo recinto de feiras semanais, sofre neste momento uma tremenda intervenção, resultante da desenfreada tentativa de atrair a este concelho o que não foi conseguido por outras vias, que deveriam ter passado pelas necessárias estradas de acesso a esta região há muito abandonada, projeto interrompido nos passados anos da primeira década deste século XXI.

A Avenida 1º de Maio, em Seia, tem início na Praça Marques da Silva (1868/1953), que teve na sua rotunda, antes de ser retirada por motivo de obras, uma estátua do insigne senense, Afonso Costa (1871/1937), um dos republicanos que muito contribuíram para a queda da monarquia em 5 de outubro de 1910. À hora em que cheguei pouca gente havia nesse lugar e a rotunda continuava vazia da estátua, sem se saber qual seria o seu destino. Alguns trabalhadores, em grande azáfama, arrancavam e recolocavam placas de trânsito, sinal de que a moderna Avenida 1º de Maio, agora devidamente maquilhada, deverá em breve reabrir completamente ao trânsito de pessoas e viaturas. Ao meu lado chegou-se um cidadão que me pareceu, sobretudo pela roupa que usava, alguém de aparência ilustrada. Perguntei-lhe se sabia qual o destino dado à estátua do antigo republicano. Respondeu-me que tinha a “certeza absoluta” de que a escultura “tinha ido para o lugar dela, lá para baixo”. Interroguei-me se esse meu interlocutor não seria um saudoso monárquico que quereria ver enterrado, mais uma vez, o algoz da monarquia. Perante essa assertividade disse-lhe que eu – depois de ler, superficialmente, Descartes (1596/1650) – não tenho assim tantas certezas, quanto mais absolutas, e que não entendia o que ele queria dizer, “lá para baixo”.

Foi então que tive consciência do meu erro de análise ao constatar que a ilustração do cidadão que eu interpelei, realmente não passava da roupa que vestia. O “pobre homem” teimava que a estátua retirada da rotunda era de Marques da Silva, o grande empreendedor da produção de energia elétrica deste concelho, na primeira metade do séc. XX, que dava o nome à praça. Quando, na continuação da curta troca de palavras, lhe disse que Afonso Costa tinha sido um ilustre político e ex-primeiro ministro da nossa Primeira República (1910/1926), tive de lhe aturar alguns impropérios típicos dos desinteressados pela política dos nossos tempos: “não quero saber da política, não estou para aturar esses gajos” foi a resposta lacónica desse representante da ignorante população do meu concelho.

Sozinho, sem me atrever a perguntar a mais ninguém para onde irá ser deslocada a referida estátua, fui pensando que não ficaria mal se fosse colocada no jardim do futuro e muito adiado Centro Interpretativo da República, em Seia, cujo edifício está há tempos remodelado à espera de prováveis visitantes que virão proceder à sua inauguração, que, se quiserem aqui chegar por estradas mais rápidas e seguras, terão de esperar mais algumas décadas!

E na rotunda da Praça Marques da Silva talvez ficasse bem a representação do manguito de Bordalo Pinheiro, como saudação à classe política que esporadicamente nos visita, abominada talvez pela maioria dos senenses!

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