O Hospício da Vida , um conto dos tempos modernos

Consultora e Formadora em Comunicação Organizacional e Gestão da Qualidade
Há uma sensação difusa, quase atmosférica de que estamos hiperconetados e, ao mesmo tempo, menos conscientes. Informação em excesso, reflexão em défice, opiniões instantâneas, pensamento lento e em vias de extinção.
No alto desta colina ergue-se o Hospício da Vida. Porque viver é assim, como um hospício, cada qual a gritar para o seu lado.
O Hospício da Vida pode ser o que quiserem que seja. Omnipresente, é idealista, caprichoso, racional ou irracional. Dentro dele vivem dois senhores e uma senhora.
A Dona Maria dos Prazeres não pensa. Sente e quer. Quer intensidade, quer prazer, fuga e alívio. Ela não tem paciência para a moral nem para a reputação. Se está triste, quer anestesia. Se está zangada, quer explosão. Se está carente, quer colo, mesmo que seja tóxico.
O Dr. Like usa fato e gravata invisíveis. É o guardião da imagem. É ele que pergunta: “O que vão pensar?”. Vive de aprovação externa. Precisa de validação social. Tem um código interno rígido: certo/errado, sucesso/fracasso, digno/indigno. Quando exagera, transforma-se num juiz implacável. Nada é suficiente.
O Sr. Justo é o mediador ou pelo menos tenta ser. Ele ouve a Maria dos Prazeres a gritar por impulso e vê o Dr. Like a impor reputação e regras. Sendo “Justo”, tenta negociar um acordo que permita ao Hospício sobreviver no mundo real.
Quando está em equilíbrio é sábio, mas quando está fragilizado começa a mentir para manter a paz. E é aqui que entra a dissonância cognitiva. O Sr. Justo começa a justificar o injustificável. Ele não gosta de conflitos, mas ao tentar agradar aos dois extremos, às vezes sacrifica a autoestima.
Estes três personagens saídos de uma fábula de Freud tentam gerir o hospício da vida. E é assim que o hospício ganha identidade própria.
Esta identidade é um palco de impulsos contraditórios, com o Sr. Justo em tentativas desesperadas para impor coerência, uma luta constante para colocar verniz numa mesa rachada.
Mas como é que uma Senhora impulsiva, um Senhor bem vestido e um mediador em dissonância cognitiva podem fazer crescer o Hospício da Vida?
É mais ou menos isto, imaginem uma mesa…
De um lado, o Dr. Like, está sempre impecavelmente vestido, obcecado com a reputação coletiva. Ele bate na mesa e diz: “Temos de parecer evoluídos, conscientes, produtivos, felizes. O mundo está a ver.” Propõe rankings, visibilidade, impacto. Quer aplauso internacional, quer aprovação moral, quer distinção.
Do outro lado, irrequieta, está a Dona Maria dos Prazeres. Revira os olhos. “Eu quero sentir. Quero intensidade, prazer imediato, distração. Não me falem em futuro. É ela que pede consumo rápido, divertimento constante, dopamina em pequenas doses. Se dói, Xanax. Se aborrece, troca-se.
Entre os dois, suado e com papéis espalhados, está o Sr. Justo. Ele tenta conciliar: “Vamos trabalhar muito, mas também precisamos de descansar. Vamos ser autênticos, mas sem perder seguidores. Vamos falar de saúde mental, mas sem parecer fracos.” Ele constrói compromissos frágeis, narrativas equilibradas o suficiente para manter a máquina a funcionar.
O descontrolo do ego destes senhores dá origem a esta sociedade, hiperexposta porque o Dr. Like exige palco; impulsiva e saturada porque a Dona Maria dos Prazeres quer estímulo contínuo; e permanentemente exausta porque o Sr. Justo tenta manter tudo coeso sem deixar o sistema colapsar.
É por isso que parecemos conscientes e ao mesmo tempo superficiais. Queremos profundidade, mas num palco iluminado. Queremos prazer desmedido, mas com aprovação social. Queremos equilíbrio, mas recusamos o silêncio.
No centro de todos estes infernos, num quarto frio e silencioso, está a autoestima. Ligada a máquinas. Em coma, em espera.
Espera que o ego, esse senhor vaidoso e histérico, finalmente se sente. Que deixe de gritar. Que aceite que não tem de ser sempre o centro do palco.
Espera que o “eu” verdadeiro consiga escutar. Que pare de fingir, de encenar, de agradar. Que escolha viver em vez de sobreviver.
A autoestima não morre. Mas pode ficar anos adormecida, presa num corpo que repete frases bonitas enquanto se desfaz por dentro. Pode parecer apagada, mas basta um gesto de verdade, uma escuta real, um não dito com firmeza, um sim sentido sem culpa, para ela poder abrir os olhos.
Acordar não é rápido. Nem sempre é bonito. Mas é possível.
E talvez o primeiro passo seja reconhecer que o ego não é um inimigo a destruir, mas um guardião mal treinado. Que às vezes protege, mas muitas vezes sufoca. Que precisa de regras, limites, e uma boa dose de humildade.
Porque não é no palco dos aplausos que se encontra a liberdade. É no quarto onde a autoestima desperta. No silêncio em que o ego aprende a escutar.
No fundo, não é uma sociedade má.
É uma sociedade em negociação interna permanente onde o ego coletivo ainda está a aprender quem deve, afinal, presidir à mesa.
Se eu tivesse de escolher três palavras que mostram o pior do ser humano, não escolheria “violento” ou “cruel”. Isto são consequências. Iria às raízes.
Escolheria: Egocêntrico, Medroso e Inconsciente.
O egocentrismo é o terreno fértil onde crescem quase todos os outros vícios.
Quando o “eu” ocupa todo o espaço.
Quando a própria dor é sempre maior do que a dos outros.
Quando a opinião pessoal vale mais do que a verdade.
O medo disfarça-se de arrogância, de controlo, de agressividade. Mas por dentro é só pânico mal resolvido.
Inconsciente, não no sentido clínico, mas no sentido de não medir as consequências e nos seus atos ser nefasto na sua relação com o mundo.
O ser humano tem uma capacidade extraordinária de justificar o injustificável, de adaptar a narrativa para não enfrentar a verdade e ter a sua própria verdade.
A pior versão de nós não é a que erra.
É a que erra… e se convence de que está certa.
(dedicado às minhas amigas Nádia e Rosa, em tempos, juntas idealizamos um hospício perfeito)
