Ara Shoes avança para novo lay-off e inicia processo para despedir 63 trabalhadores
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A Ara Shoes Portuguesa, empresa de calçado com unidade industrial em Seia, vai avançar novamente com um regime de lay-off e iniciou um processo de despedimento coletivo que poderá abranger cerca de 63 trabalhadores. A empresa justifica as medidas com a quebra das encomendas, a redução da atividade produtiva e a necessidade de redimensionar a estrutura de pessoal.

A Ara Shoes Portuguesa prepara-se para avançar com um novo período de lay-off, que deverá começar entre 31 de agosto e 18 de setembro, consoante o momento em que termine a produção nas diferentes máquinas, e prolongar-se, previsivelmente, até 31 de outubro.

De acordo com a comunicação enviada aos trabalhadores, a que o Seia Digital teve acesso, a empresa “registou uma diminuição superior a 15% nas encomendas” de calçado para a estação Outono/Inverno de 2026, situação que, segundo a administração, “implica a necessidade de reajustamento da capacidade produtiva”.

O lay-off poderá assumir a modalidade de suspensão total ou parcial da prestação de trabalho, de acordo com as necessidades da produção. A empresa explica que, à medida que a produção das diferentes máquinas for terminando, os trabalhadores direta ou indiretamente envolvidos nessas operações entrarão no regime.

A administração refere, contudo, que o lay-off poderá terminar antes de 31 de outubro caso se verifique o regresso à produção. A empresa aponta a existência de encomendas para a coleção Primavera/Verão de 2027, cuja produção deverá iniciar-se, o mais tardar, durante o mês de outubro.

Segundo a Ara, a medida tem como objetivo “racionalizar os custos com o pessoal”, adequando o quadro de trabalhadores ao volume de trabalho e permitindo “equilibrar os resultados da empresa e ultrapassar o período de não produção”.

A administração considera ainda que se trata de uma “medida transitória indispensável para assegurar a viabilidade económica da empresa”.

Despedimento coletivo pode abranger 63 trabalhadores

Paralelamente ao lay-off, a Ara Shoes Portuguesa comunicou posteriormente aos trabalhadores a intenção de avançar com um despedimento coletivo que poderá abranger cerca de 63 pessoas.

Na comunicação a que também tivemos acesso, a empresa aponta como fundamento uma necessidade de redução do número de colaboradores, assente em “motivos de natureza tecnológica e estrutural”.

A administração justifica a decisão com a conjuntura económica dos principais mercados onde atua o grupo Ara, particularmente a Alemanha, França e Áustria, que representam, em conjunto, “cerca de 55% do volume de negócios” da Ara Shoes GmbH, empresa alemã que é o único cliente da unidade portuguesa.

A empresa aponta a “deterioração continuada das condições de mercado”, a redução do poder de compra, a inflação, as taxas de juro, as incertezas geopolíticas e comerciais e a evolução económica dos principais mercados de destino como fatores que têm contribuído para a redução da procura.

Segundo a comunicação, os distribuidores e parceiros comerciais “reduziram drasticamente” as encomendas, com uma diminuição de “mais de 8% no volume total de encomendas” no último ano fiscal.

A empresa sustenta ainda que, perante o decréscimo das vendas e das encomendas “na ordem dos 15%”, a atual estrutura de pessoal “encontra-se sobredimensionada face à procura”, apontando a decisão de reduzir o quadro como “a única viável para assegurar a sobrevivência da empresa”.

Fim do turno da noite na máquina 30

Entre as novidades apresentadas nesta comunicação relativamente ao processo anterior está a indicação de que a empresa “será obrigada a terminar o turno da noite na máquina 30 e passará a realizar toda a produção apenas em duas máquinas de injeção”, em vez das atuais três.

A Ara considera que a manutenção do atual quadro de pessoal, perante a redução da atividade, “comprometeria a competitividade” da unidade industrial e defende a necessidade de “reorganizar os trabalhadores” quer nas áreas produtivas quer nas áreas de suporte à produção.

A empresa afirma ter já procurado reafectar trabalhadores à restante operação, de acordo com as suas qualificações, e ter procedido, no último ano, à redução possível do quadro de pessoal por acordo.

No documento, a administração considera que o despedimento coletivo é o mecanismo adequado para redimensionar a empresa e salvaguardar os restantes postos de trabalho.

Entre os critérios apontados para a seleção dos trabalhadores potencialmente abrangidos estão a polivalência, o nível de absentismo, a avaliação da performance laboral e o conteúdo das funções desempenhadas.

Negociações começam a 1 de setembro

A empresa informa que os despedimentos serão efetuados no final do procedimento, depois de cumpridos os prazos legais aplicáveis.

A primeira reunião da fase de informação e negociações está marcada para 1 de setembro, às 10h00, nas instalações da cantina de Seia da Ara Shoes Portuguesa.

A comunicação refere ainda que a empresa pretende, no âmbito das negociações, propor o pagamento da totalidade das compensações exigidas por lei, procurando alcançar uma solução de “paz social”.

Contactada pelo Seia Digital, a empresa não prestou, até ao momento, esclarecimentos adicionais sobre os processos de lay-off e despedimento coletivo.

Câmara Municipal acompanha situação “com preocupação”

O presidente da Câmara Municipal de Seia, Luciano Ribeiro, acompanha “com preocupação” a situação da empresa e dos seus trabalhadores, confirmando ao Seia Digital que a autarquia foi informada pela administração sobre o “recurso ao lay-off e a possibilidade de um novo ajustamento da força de trabalho”.

Segundo Luciano Ribeiro, a empresa reafirmou, contudo, que “a unidade de Seia continua a ser essencial para a atividade do Grupo Ara”.

Perante a situação, o Município mantém “um acompanhamento próximo, em articulação com o IEFP”, procurando assegurar respostas nas áreas da formação, requalificação e integração profissional dos trabalhadores que possam vir a ser afetados, em função das necessidades da economia local.

Para o presidente da Câmara, a defesa do emprego e a salvaguarda do futuro da unidade de Seia “continuarão a merecer toda a atenção e empenho” do Município.

Novo processo surge meses depois de despedimento de 42 trabalhadores

Este novo processo surge poucos meses depois de a Ara Shoes ter anunciado, em fevereiro, um despedimento coletivo que poderia abranger 42 trabalhadores.

Na altura, a empresa tinha também colocado trabalhadores em lay-off devido à quebra das encomendas.

O novo processo representa mais um momento de instabilidade numa empresa que é um dos principais empregadores industriais do concelho de Seia.

Em 2024, a Ara Shoes tinha já avançado com um despedimento coletivo que, segundo a informação então divulgada, envolveu cerca de 300 trabalhadores.

A Ara Shoes Portuguesa tem sede em Vila Nova de Gaia e a unidade industrial de Seia, que iniciou atividade em 6 de maio de 1991, é atualmente a única unidade de produção do grupo em funcionamento na Europa. A empresa alemã Ara Shoes GmbH, com sede na Alemanha, é o único cliente da fábrica portuguesa.

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