Ara Shoes avança com despedimento coletivo que poderá abranger 42 trabalhadores
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A empresa de calçado ara Shoes Portuguesa, com unidade industrial em Seia, comunicou formalmente a intenção de avançar com um despedimento coletivo que poderá abranger cerca de 42 trabalhadores.

O documento, datado de 10 de fevereiro, surge uma semana depois de ter sido comunicada aos colaboradores a aplicação do regime de lay-off, com fundamento na “diminuição superior a 20% nas encomendas de calçado para a estação Primavera/Verão de 2026”, implicando a “necessidade de reajustamento da capacidade produtiva”, após concluída a produção da referida estação.

Na comunicação relativa ao despedimento coletivo, a que o Seia Digital teve acesso, a empresa invoca “motivos de natureza tecnológica e estrutural” e refere a necessidade de reduzir cerca de 42 postos de trabalho face à quebra da procura nos principais mercados europeus.

Segundo o documento, a empresa portuguesa tem como único cliente a ara Shoes GmbH, com sede na Alemanha, estando a sua sustentabilidade dependente da evolução económica de mercados como Alemanha, França e Áustria, que “representam cerca de 55% do volume de negócios”.

A gerência sustenta que, nos últimos anos, estes países “enfrentaram uma conjuntura macroeconómica adversa, que impactou de forma direta e insustentável a atividade da ara Shoes”. Além daqueles mercados, a administração salienta que, em outros países importantes para a empresa, como os Países Baixos, Itália e Estados Unidos da América, se registou uma diminuição das encomendas “em mais de 8% no volume total no último ano fiscal”. Acrescenta ainda que o sobredimensionamento da atual estrutura produtiva torna o despedimento coletivo “o único meio jurídico adequado” para “assegurar a sobrevivência da empresa” e salvaguardar os restantes postos de trabalho.

No documento é ainda referido que a empresa “já reafectou à restante operação os trabalhadores possíveis, de acordo com as suas qualificações”, tendo efetuado, no último ano, por acordo, a redução possível do quadro de pessoal, “ajustando-o a uma menor necessidade produtiva”. A administração receia agora que, perante o “decréscimo de vendas”, a manutenção de trabalhadores em situação de inatividade comprometa a competitividade da ara Shoes Portuguesa no mercado internacional, considerando “urgente o reajustamento da capacidade produtiva ao atual cenário”.

Como a reestruturação “conduz à extinção de postos de trabalho”, foram considerados critérios como a polivalência funcional, o nível de absentismo, a avaliação de desempenho e o conteúdo funcional exercido. O documento refere igualmente que foram tidas em conta “situações pessoais e familiares dos trabalhadores”, tendo sido selecionados aqueles “em que os efeitos na sua vida pessoal e financeira fossem menos significativos”.

O procedimento de despedimento terá a duração mínima legal de cinco dias, seguindo-se os períodos de aviso prévio, que poderão variar entre 15 e 75 dias, consoante a antiguidade dos trabalhadores abrangidos.

É intenção da empresa, no âmbito da fase de negociações, “propor o pagamento integral das compensações legalmente exigidas, sujeito à aceitação do despedimento e à remissão de quaisquer outros valores no contexto da compensação”.

Está agendada para o dia 3 de março a primeira reunião da fase de negociações.

Lay-off antecedeu despedimento coletivo

Recorde-se que, a 3 de fevereiro, a empresa comunicou a intenção de suspender contratos de trabalho (lay-off), à medida que a produção nas diferentes máquinas fosse sendo concluída. A medida, que deveria ter tido início a 16 de fevereiro, começou apenas uma semana depois, devendo prolongar-se até 31 de março, podendo vigorar, “no máximo”, até 20 de abril.

Na comunicação entregue aos trabalhadores, é referido que o lay-off poderá “terminar antecipadamente”, com o início da produção da coleção de Outono/Inverno de 2026, previsto para o mês de maio.

O recurso a este mecanismo é justificado pela empresa com a “necessidade de reajustamento da capacidade produtiva”, após a conclusão da produção da estação Primavera/Verão. O lay-off foi apresentado como uma medida de “racionalização dos custos com o pessoal, permitindo a adequação do quadro de pessoal ao volume de trabalho, o que permitirá equilibrar os resultados da empresa e ultrapassar o período de não produção”.

Contactada pelo Seia Digital, a empresa não prestou, até ao fecho da notícia, quaisquer esclarecimentos adicionais sobre o processo de lay-off e o despedimento coletivo anunciado.

Recorde-se que, no ano de 2024, a fábrica de calçado Ara, um dos maiores empregadores do concelho de Seia, despediu cerca de 300 trabalhadores. A empresa de capitais alemães procedeu então a vários reajustamentos: começou por encerrar a secção de solas e pintura, dispensou trabalhadores na secção de montagem e reduziu as linhas de costura de seis para três, acabando por encerrá-las definitivamente. A empresa apostou na área da injeção e concentrou em Seia as unidades de logística e o armazém de exportação do grupo alemão.

A ara Shoes Portuguesa, com sede em Vila Nova de Gaia, está implementada em Portugal desde 1974. A unidade de produção de Seia, atualmente a única a laborar no país, iniciou atividade a 6 de maio de 1991, tornando-se numa das principais empregadoras, produtoras e exportadoras do setor do calçado em Portugal.

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