Governo anuncia 30 milhões para reforçar pastorícia e valorizar a lã
O secretário de Estado da Agricultura, João Moura, anunciou esta manhã, em Seia, a abertura de um apoio financeiro de 30 milhões de euros destinado ao reforço da pastorícia extensiva, medida que visa aumentar a resiliência dos territórios de risco de incêndio e potenciar a valorização das raças autóctones e da lã nacional.
O anúncio foi feito na sessão de abertura do debate “Lã: De resíduo a recurso. Como fechar o ciclo?”, integrado na programação da 49ª Feira do Queijo Serra da Estrela, onde o governante defendeu uma mudança estrutural na forma como a lã é enquadrada nas políticas públicas.
A medida, que ficará disponível a partir de segunda-feira na plataforma do IFAP, destina-se sobretudo a territórios classificados como de risco de incêndio, como a Serra da Estrela, reforçando os chamados “mosaicos” de gestão do território, considerados fundamentais para a prevenção de fogos rurais.
“Vamos lançar 30 milhões de euros para tornar os territórios mais resilientes. É uma oportunidade para os nossos agricultores aumentarem as áreas de extensivo”, afirmou João Moura.
Segundo o secretário de Estado, as raças autóctones terão valorização acrescida nos apoios, destacando a ovelha bordaleira Serra da Estrela como exemplo do potencial produtivo e identitário que importa preservar.
Lã deve deixar de ser tratada como resíduo
Na sua intervenção, João Moura criticou a classificação de vários subprodutos agrícolas como resíduos, considerando que essa abordagem criou entraves desnecessários ao setor primário. Referiu que o Ministério da Agricultura já iniciou um processo de desclassificação de alguns materiais, como caroço e bagaço de azeitona e subprodutos de origem animal, assumindo o compromisso de continuar esse trabalho.
“Temos vindo a desclassificar subprodutos que foram considerados resíduos. Vamos continuar esse caminho”, garantiu, defendendo que a lã deve ser encarada como um “recurso estratégico, com potencial económico, ambiental e industrial”.
O governante referiu ainda a necessidade de encontrar soluções sustentáveis para as águas de lavagem da lã, explorando possibilidades de reutilização e valorização.
Marca nacional para a lã portuguesa
Entre as medidas anunciadas, destacou-se a intenção de criar uma marca nacional para a lã proveniente de raças autóctones portuguesas. “Temos de criar uma marca nacional que exalte aquilo que é nosso, que valorize as nossas raças autóctones e o produto português”, sublinhou.
João Moura revelou também contactos com os ministérios da Defesa e da Administração Interna para avaliar a incorporação de lã nacional nos fardamentos das forças de segurança e da proteção civil.
O secretário de Estado anunciou ainda o desbloqueio do embargo à exportação de lã para a China, mercado que absorvia parte significativa da produção nacional, considerando tratar-se de “um passo importante” para aliviar as dificuldades do setor.
Foi igualmente referido o relançamento do Centro de Competências da Lã, agora dotado de um plano de ação efetivo, bem como a possibilidade de apoio específico ao ato da tosquia, reconhecendo os custos que representa para os produtores.
“O estado da arte é negativo, mas há aqui uma grande oportunidade”, afirmou, defendendo uma estratégia integrada que vá da produção à indústria, passando pela transformação e comercialização, com forte aposta na promoção da lã portuguesa.
Seia recorda peso histórico dos lanifícios
Na abertura da sessão, o presidente da Câmara Municipal de Seia, Luciano Ribeiro, destacou o peso histórico da lã no desenvolvimento do concelho, recordando que, em 1900, o setor dos lanifícios empregava mais de sete mil pessoas.
“Este produto trouxe inovação, emprego e desenvolvimento ao concelho. Não pode ser visto como um problema, tem de voltar a ser um recurso”, defendeu o autarca.
Luciano Ribeiro alertou para os constrangimentos atuais da fileira, nomeadamente a ausência de lavadouros de lã, dificuldades legislativas e desafios de mercado. “Temos de encontrar uma solução economicamente viável que valorize este produto, respeitando naturalmente as exigências ambientais”, acrescentou.
O debate “Lã: De resíduo a recurso. Como fechar o ciclo?” reuniu produtores, investigadores, empresários e decisores políticos, num esforço conjunto para reposicionar a lã como ativo estratégico da economia de montanha.
