Balocas, aldeia ferida pelas chamas
Entre o Açor e a Estrela existe Balocas, uma pequena aldeia do concelho de Seia, guardiã de uma beleza natural única. No passado dia 15 de agosto, essa beleza foi destruída em apenas 30 minutos infernais. Cerca de 600 hectares arderam num cenário de sufoco, desespero e impotência. Estivemos sozinhos, sem qualquer ajuda, apenas com a coragem de defender a aldeia e a vida dos presentes — mas contra a tempestade de fogo, nada pudemos fazer.
O que o fogo não levou foram as casas e as poucas pessoas que ainda resistem a viver em Balocas. Essas encontraram refúgio no Centro de Convívio — fruto da união da comunidade — que, neste dia, foi a salvação de todos, incluindo a equipa da RTP que ali se abrigou.
Mas não foi só a mancha verde que desapareceu. Ardeu o que nos identificava: as cabouqueiras da forja, a cascata, o ex-líbris da aldeia. Hoje, em lugar da paisagem viva, resta apenas um cenário negro, desolador, de revolta e de medo constante dos reacendimentos. E há também compaixão pelas terras vizinhas, que continuamos a ver no meio das chamas, a sofrer a mesma dor.
Sabemos que o fenómeno que se instalou era difícil de combater em meia hora, mas acreditamos que de manhã, com coordenação, muito poderia ter sido feito. E também depois, junto das casas, onde o fogo avançava.
Fica o peso da desilusão perante um país que, ano após ano, se deixa destruir pelas chamas: governos que falham na prevenção, que não acodem na hora, que pedem ajuda externa sempre tarde e a más horas, e que continuam a menosprezar o interior e as suas gentes.
E, no entanto, quem aqui vive é gente de bem: trabalhadora, resiliente, solidária, com saúde mental — e não “doença mental descontrolada” como alguém insinuou. Pessoas que não abandonam as suas casas, porque sabem que ninguém as defenderá. E que, naquele dia, também não puderam estar junto delas, perante uma tempestade de fogo com projeções destruidoras. Gente com espírito de entreajuda e amor profundo à terra. Um amor que não se explica, sente-se. É herança dos nossos ancestrais.
Exigimos respeito. Que se criem medidas eficazes, eficientes e duradouras. Que o interior seja visto, protegido e apoiado. Portugal não é apenas Lisboa e Porto. O interior existe e merece dignidade.
Temos hoje consciência que os incêndios se repetirão. É uma realidade com a qual teremos de aprender a viver e adaptarmo-nos o melhor possível.
Não nos resignaremos. Iremos encontrar soluções para voltar a dar brilho à nossa aldeia e prepará-la para o futuro. É nossa obrigação honrar o legado que nos foi deixado e transmiti-lo às gerações vindouras.
Partilhamos o antes, o durante e o depois. E sonhamos com um futuro novamente verdejante — desta vez com verdadeira prevenção, investimento e respeito.
✍🏽Teresa, Célia, Diogo e Daniel
