O perigo da televisão ou a televisão em perigo

Senense Franco-Lusa apaixonada por Seia. Jurista. Mãe de 3 filhos. Candidata do Movimento JPNT
Em 1817 o físico escocês David Brewster inventou aquilo que se pensava ser um invento científico, o caleidoscópio que consiste num tubo com pequenos fragmentos de vidro colorido e três espelhos que formavam um ângulo de 45 a 60 graus entre si. Os pedaços de vidro refletiam-se nos espelhos, cujos reflexos simétricos, provocados pela passagem da luz, criavam a imagem a cores.
Na verdade durante muito tempo o Caleidoscópio foi utilizado de forma lúdica, como um instrumento óptico que serve para criar efeitos visuais simétricos.
Por esse motivo, atualmente a palavra Caleidoscópio também significa um conjunto de coisas que se sucedem, mudando. No âmbito desta segunda aceção da palavra podemos questionar se a televisão não é um caleidoscópio.
A televisão vive da sucessão de programas cujo valor depende dos records de audiências. Nos programas de entretenimento podemos constatar que a qualidade tem vindo a diminuir em todos os canais inclusive nos canais públicos.
Quanto aos apelidados “telejornais” consta-se ano após ano o tempo de antena tem sido cada vez mais longo, atingindo 1h30 de um sucessão de desgraças, catástrofes e escândalos dos mais diversos sectores e assuntos. Uma porção apreciável é dedicada aos comentários das notícias, com painéis de “especialistas” ou de fazedores de opinião, que “mastigam” e dão os raciocínios in vogue dos lobbys instalados e pensamento dominante.
A procura da news tipo o “homem mordeu o cão” é aquela de que todos querem o exclusivo porque o que conta são as audiências e já não tanto a relevância ou importância jornalística da notícia.
A actual lógica televisiva faz da TV um verdadeiro caleidoscópio em que a realidade sai distorcida, sendo o telespectador, a cobaia das audiências e da desinformação.
Tal como a coca-cola não é um medicamento, o caleidoscópio não foi um invento científico, mas foram invenções que até agora perduram: uma, como bebida de primeira ordem e a outra como jogo. Não traíram a sua essência e as suas vidas não estão ameaçadas.
Por seu lado, a televisão terá dificuldade a resistir às novas tecnologias, já que as audiências da população mais jovem estão em decréscimo. De acordo com o regulador britânico, Ofcom, em 2022, as pessoas entre os 16 e 24 anos passam agora menos de uma hora em frente à televisão programada (que tem horários de programas definidos) num dia normal, o que representa “uma queda de dois terços nos últimos 10 anos”.
A importância da televisão no seu formato programado tende a diminuir, ficando por comprovar a sua capacidade de se regenerar e até a necessidade de manter os canais públicos que abraçam a mesma lógica dos restantes canais comerciais, quando, cada vez é mais difícil afirmar que, a televisão presta um serviço público de relevo.
