“Um abraço, Tony”: Pai de António Rocha continua a falar com o filho 25 anos depois do 11 de Setembro
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Augusto Rocha falou em exclusivo ao Seia Digital sobre António Augusto Tomé Rocha, natural de Vila Verde, Seia, que morreu aos 34 anos nos atentados de 11 de setembro de 2001. Vinte e cinco anos depois, a memória do filho permanece presente nos objetos, nas fotografias e nos pequenos gestos do quotidiano.

Há 25 anos que António Augusto Tomé Rocha não está fisicamente com a família. Mas, para o pai, António (o Tony) continua presente todos os dias. “A memória dele em nós está viva. Está viva”, afirma Augusto Rocha ao Seia Digital, numa conversa telefónica marcada pela emoção, mas também por muitas recordações da vida do filho, natural de Vila Verde, no concelho de Seia.

António Rocha e mãe Rosa no dia da formatura

A família viveu uma circunstância que, segundo Augusto, acabou por trazer algum conforto no meio da tragédia: o corpo de António foi recuperado e existe um local onde pode ser visitado e homenageado.

“Fizemos um funeral e temos um lugar onde a gente o visita”, explica. A proximidade do cemitério, em East Hanover, onde a família vive, permite manter uma rotina de memória. A mulher de Augusto coloca uma flor, o casal passa pelo local e, de alguma forma, foi construindo ao longo dos anos uma maneira de conviver com a ausência. “Isso nos deu uma tranquilidade, um hábito que já digerimos, bem, digamos, a perda”, conta.

Mas é uma mensagem recebida na manhã de 11 de setembro de 2001 que Augusto diz ter ficado “gravada eternamente”.

Naquele dia, encontrava-se nas Bahamas. Quando chegou ao escritório, encontrou uma mensagem deixada pelo filho no terminal da Bloomberg. “Bom dia, Catalino”, escreveu António, usando o nome carinhoso pelo qual tratava o pai. É uma frase simples, mas que Augusto continua a guardar como uma das memórias mais fortes do filho. “Essa mensagem ficou-me gravada eternamente”.

Um filho que encontrou nas finanças o caminho do pai

António começou por estudar Engenharia Civil, mas rapidamente percebeu que não era esse o caminho que queria seguir. “Chegou ao fim do primeiro ano e diz que não gostava daquilo. ‘Não é isso, não quero isso’”, recorda Augusto. Optou então pela área de Finanças, seguindo, de certa forma, as pisadas profissionais do pai.

António Rocha (à esquerda) com o irmão Jason

Foi também Augusto que acabou por lhe abrir uma das primeiras portas no mundo profissional. Um amigo brasileiro, com quem fazia negócios, procurava um jovem para iniciar um percurso como broker. “Eu disse: a única pessoa que eu lembro de um momento é o meu filho, que está a terminar a escola”.

António passou pelo rigoroso processo de seleção e conseguiu o primeiro emprego na área. Mais tarde, dizia ao pai que gostava realmente do trabalho. “Oh pai, efetivamente eu adoro este trabalho”, recorda Augusto. Para o pai, essa evolução profissional continua a ser motivo de orgulho.

António viria depois a integrar a Cantor Fitzgerald, onde trabalhava quando morreu. Augusto recorda particularmente a rapidez com que o filho progrediu e o reconhecimento que alcançou dentro da empresa. Uma das suas vantagens profissionais era também a capacidade de comunicar em várias línguas. António falava português, espanhol e italiano, competências que despertaram o interesse da empresa numa possível expansão para o Brasil. Pouco depois de entrar na Cantor Fitzgerald, viajou para aquele país. “Foi muitíssimo bem recebido, gostaram muito dele”, recorda o pai.

Vila Verde nunca deixou de fazer parte da vida de António

Apesar de ter saído muito jovem de Portugal, António manteve a ligação às suas raízes familiares. A família regressava regularmente a Portugal e Vila Verde, terra da mãe, fazia parte desses percursos. “Nós íamos sempre, sempre, sempre”, recorda Augusto.

António encontrava aqui familiares, sobretudo primos, e acompanhava os pais nas viagens à Europa. “Vínhamos a Portugal exatamente para matar saudades”. A ligação à terra de origem permaneceu, portanto, como parte da história familiar, apesar de a vida de António ter sido construída nos Estados Unidos.

Um carro, uma matrícula e muitas outras pequenas memórias

Ao longo de 25 anos, a família foi preservando objetos e gestos que mantêm António presente. Um deles é particularmente simbólico para Augusto: o carro que conduz em Portugal. António tinha uma paixão pelos BMW e foi ele quem ajudou o pai a definir, em detalhe, o carro que Augusto viria a comprar. “Hoje o carro que eu tenho aqui em Portugal é exatamente o mesmo que, há 25 anos, o meu filho detalhou em pormenor aquilo que ele queria no carro, como se fosse para ele”.

Augusto e Rosa, pais de António Rocha

Por isso, o automóvel ganhou outro significado. “Tenho o carro porque foste tu que o idealizaste”, diz Augusto, numa espécie de agradecimento permanente ao filho.

Nos Estados Unidos existe outro símbolo ainda mais direto. A matrícula do carro da família tem inscrito “Tony 67”, numa referência ao filho e ao seu ano de nascimento. E há mais. Fotografias espalhadas pela casa. Ferramentas que pertenceram a António e que continuam a ser utilizadas.

“Às vezes até ferramentas. Eu pego numa ferramenta que era dele e digo assim para a minha mulher: ‘Olha, isso era do Tony, era do Tony’”. No quarto da casa nos Estados Unidos existe também um objeto particularmente especial: um quadro feito com retalhos de roupas de António, posteriormente emoldurado por Augusto. “Temos muitas lembranças. Muito. Mas muitas mesmo, até objetos”, disse.

“Carregamos ele no dia a dia”

É talvez essa a expressão que melhor resume o testemunho de Augusto. “Carregamos ele no dia a dia”. A família mantém viva a memória de António através desses pequenos sinais, mas também através de uma presença mais íntima.

Quando passa pelo cemitério de East Hanover, Augusto mantém um ritual pessoal. “Eu faço a minha bênção e falo comigo, e digo ao Tony: ‘Oh Tony, um abraço’”. E acrescenta: “São coisas muito pessoais, mas que transmitem exatamente todo o sentimento que eu tenho”. Para Augusto, é quase como continuar a conversar com o filho. “É como se estivesse a falar para ele e ele pudesse responder de volta”.

Vinte e cinco anos depois, a família reúne-se para recordar António

A passagem dos 25 anos será assinalada pela família de uma forma particularmente próxima. Augusto encontra-se atualmente em Aveiro e, esta sexta-feira, a família vai participar pelas 18h30 numa missa em memória de António, juntamente com familiares mais próximos, incluindo elementos da família de Vila Verde. Depois da celebração eucarística, haverá um jantar em família para assinalar a memória de Tony.

Nos Estados Unidos, entretanto, o filho Jason e os dois filhos de António estarão presentes nas cerimónias do 11 de Setembro e participarão na leitura dos nomes das vítimas. Os dois filhos de António, que eram ainda crianças quando o pai morreu, têm hoje 26 e 28 anos.

“Sinto-me muito feliz pelo trajeto que ele fez”

Perguntado sobre aquilo que gostaria hoje de dizer ao filho, Augusto demora-se na resposta. A emoção regressa, mas a mensagem acaba por ser sobretudo de orgulho.

“Se eu pudesse falar com ele, dizia: sinto-me muito feliz pelo trajeto que ele fez e que ele iniciou”. É um orgulho que passa pela carreira, pelas escolhas e pelo caminho que António construiu.

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