Futuro do turismo “será cada vez mais humano, digital e sustentável”, defendem especialistas em Seia
Publicidade

O futuro do turismo está a ser decidido agora e passará inevitavelmente pela sustentabilidade, pela coesão territorial e pela valorização do Interior. A convicção foi partilhada esta quarta-feira no Fórum da Sustentabilidade em Turismo – Boas Práticas Sem Filtros, que decorreu na Escola Superior de Turismo e Hotelaria (ESTH) de Seia.

O presidente da Entidade Regional do Turismo do Centro, Rui Ventura, foi categórico ao afirmar que o turismo do futuro “será cada vez mais humano, digital e sustentável”, sublinhando o papel determinante do setor como instrumento de desenvolvimento dos territórios do Interior, de fixação de população, atração de talento e valorização dos recursos endógenos.

Rui Ventura, que representou também o secretário de Estado do Turismo na sessão de abertura, felicitou a ESTH e o Instituto Politécnico da Guarda pela promoção de um espaço de reflexão estratégica sobre um tema central nas políticas públicas nacionais e europeias. Defendeu que o turismo sustentável é hoje uma condição essencial para a continuidade de Portugal como destino turístico, sublinhando que o desafio atual “já não é apenas crescer, é crescer com responsabilidade e com visão de futuro”.

O responsável destacou ainda o contributo do turismo para a coesão territorial, a valorização do Interior e a transição climática, defendendo um modelo assente no respeito pelo ambiente, pelas comunidades locais e pelas gerações futuras. “O turismo sustentável é aquele que deixa um lugar melhor do que aquele que encontrou”, afirmou, acrescentando que “cada visitante deve deixar apenas uma pegada de respeito e admiração pelo território”.

O presidente do Turismo do Centro apontou o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) como uma “oportunidade histórica” para transformar estruturalmente o setor, tornando-o mais resiliente, sustentável e preparado para os desafios climáticos e tecnológicos. Sendo o Centro de Portugal um território de emoções e de oportunidades, “temos de continuar a construir um turismo com alma, com tecnologia, mas sobretudo com gente”, afirmou, considerando que cada visitante “é uma semente, traz o mundo consigo e leva um pedaço de nós para todo o mundo”.

Dirigindo-se aos estudantes, Rui Ventura reforçou que investir em turismo “é investir no futuro, na sustentabilidade e na coesão territorial”, destacando o papel central das instituições de ensino superior na construção de políticas públicas mais informadas, inovadoras e eficazes.

“A sustentabilidade não pode ser um chavão”

Em representação do Município de Seia, a vereadora Teresa Pereira afirmou que o mote do Fórum constitui um convite “à transparência, à partilha honesta de experiências e à discussão aberta” sobre o que está a funcionar, o que precisa de ser melhorado e o que ainda falta fazer para tornar o turismo verdadeiramente sustentável. A autarca sublinhou que a sustentabilidade “não pode ser apenas uma tendência ou uma moda, mas um fator crítico para a competitividade dos destinos”.

Teresa Pereira destacou o percurso do concelho e da região Centro como exemplo de crescimento turístico em equilíbrio com o território, apontando a valorização da Serra da Estrela, a preservação do património natural e cultural, o apoio aos produtos locais e a aposta em experiências autênticas e de pequena escala. Entre vários exemplos, referiu Loriga como uma das melhores Best Tourism Villages do mundo, o CineEco, a rede de percursos pedestres e de natureza, o Centro de Interpretação da Serra da Estrela, os museus municipais, o Museu do Pão, a Feira do Queijo, a Festa da Transumância e dos Pastores, bem como eventos Ocupar a Velga e Cabeça Aldeia Natal.

A vereadora salientou ainda a importância da valorização dos saberes e produtos locais, como o mel, os enchidos, os licores, a lã e o burel, bem como o papel das confrarias gastronómicas. “O turismo só faz sentido quando gera valor económico, social e ambiental de forma equilibrada”, afirmou.

Teresa Pereira reconheceu, contudo, alguns problemas com os desafios do turismo sustentável, nomeadamente a “pressão excessiva” sobre os recursos naturais e a sazonalidade, manifestando a esperança de que o Fórum seja um espaço de aprendizagem e partilha, incluindo sobre aquilo que não correu bem, permitindo evitar erros no futuro.

Alerta para a massificação dos eventos

Por sua vez, o vice-presidente do Instituto Politécnico da Guarda, Carlos Rodrigues, sublinhou que o Fórum reuniu a combinação essencial para discutir desenvolvimento sustentável: autarquias, empresas, especialistas e academia. Defendeu que os territórios do Interior devem afirmar-se como referência e não como exceção, destacando o compromisso do IPG com a formação, a investigação e a ligação ao território.

Carlos Rodrigues partilhou ainda um episódio vivido na Aldeia Natal de Cabeça, alertando para os riscos da massificação de eventos de sucesso. “Um evento fantástico pode transformar-se num problema de sustentabilidade se não for devidamente gerido”, afirmou, deixando um aviso claro às entidades organizadoras e decisores. Uma preocupação igualmente partilhada por Teresa Pereira, que defendeu que “uma aldeia tem de continuar a ser uma aldeia. Se perde a sua identidade, deixa de ser um destino diferenciado”.

Já o diretor da ESTH, Ricardo Guerra, destacou a relevância estratégica do tema e sublinhou que a forte adesão ao Fórum “honra a Escola” e confirma a importância da reflexão em torno da sustentabilidade no turismo.

Ao longo do dia, o Fórum promoveu a partilha de boas práticas e experiências, no âmbito do Mestrado em Gestão e Sustentabilidade no Turismo, com vários painéis dedicados a territórios e empresas sustentáveis, destinos, hotéis e restauração, bem como um workshop sobre cozinha consciente, reforçando o papel do turismo como motor de desenvolvimento sustentável dos territórios.

Partilhe este artigo...