Paulo Hortênsio considera que primeiro ano de mandato em Seia ficou aquém das expectativas
O vereador do PSD defende que o concelho precisa de “mais execução, melhor planeamento e uma proximidade maior às populações”. Paulo Hortênsio aponta atrasos em projetos estruturantes, falta de uma estratégia mais clara para a habitação e desenvolvimento económico e reclama maior participação das freguesias nas decisões municipais.
Um ano depois do início do atual mandato autárquico, Paulo Hortênsio, vereador do PSD na Câmara Municipal de Seia, faz um balanço crítico do trabalho desenvolvido pela maioria socialista, considerando que ficou aquém das expectativas criadas junto dos eleitores. Em entrevista ao Seia Digital, apesar de reconhecer alguns avanços e a continuidade de obras e apoios iniciados anteriormente, entende que o Município precisa de acelerar a concretização dos projetos e melhorar o planeamento.
“Este primeiro ano foi de transição e aprendizagem, mas também de constatação clara: o concelho de Seia precisa de mais execução, melhor planeamento e uma proximidade maior às populações”, afirma o líder da oposição, que reconhece “alguns avanços pontuais, designadamente a continuidade de obras herdadas e o apoio às associações e juntas de freguesia. Ainda assim, o balanço global ficou aquém da expectativa criada junto dos eleitores”.
Na sua avaliação, o “principal resultado foi a manutenção de uma ação municipal nas áreas essenciais, como a rede viária, a educação, a proteção civil e a resposta a situações de emergência”. Refere que o problema continua a ser a capacidade de transformar planos e anúncios em resultados concretos. “O desafio central continua por resolver: a capacidade do Município para transformar planos, candidaturas e anúncios em obras concluídas, infraestruturas mantidas, serviços melhorados e oportunidades concretas para quem vive e trabalha no concelho”, considera.
O vereador aponta a execução das Grandes Opções do Plano em 2025, de 80,3%, e a posição de abstenção do PSD na aprovação das contas como sinais de que “objetivos importantes não avançaram ao ritmo necessário”.
Habitação, economia e turismo entre os compromissos por concretizar
No que respeita aos compromissos eleitorais, Paulo Hortênsio reconhece progressos em “alguns compromissos de natureza operacional”, nomeadamente intervenções na rede viária, nos apoios às juntas de freguesia, na proteção civil e na “continuidade de projetos estruturantes já iniciados no mandato anterior”. No entanto, considera que “continuam sem tradução visível em resultados concretos compromissos nas áreas da habitação, desenvolvimento económico, valorização do turismo, cultura, desporto, associativismo e prevenção estrutural de incêndios”.
O social-democrata entende que as dificuldades não podem ser justificadas apenas pelo contexto externo. Defende “um planeamento mais robusto, calendários realistas, maior capacidade técnica e uma gestão capaz de antecipar constrangimentos já conhecidos”, como a escassez de mão de obra, o aumento dos custos da construção e a concorrência pelo financiamento do PRR.
Paulo Hortênsio reconhece como “decisões mais relevantes” as que “garantiram a continuidade do investimento municipal e deram resposta às necessidades imediatas das populações”, sobretudo na rede viária municipal, as requalificações em algumas freguesias, as melhorias no parque escolar, proteção civil e os apoios a equipamentos e espaços públicos.
Considera, porém, que “as prioridades municipais devem ser avaliadas pela capacidade de resolver problemas concretos, gerar desenvolvimento económico e chegar de forma equitativa a todo o território”.
Nesse sentido, entende que “faltam decisões mais claras e ambiciosas na estratégia de valorização do território”, nomeadamente nas áreas da habitação acessível, qualificação das zonas empresariais, valorização do aeródromo, cultura, desporto e prevenção de incêndios.
Parque Verde e Aeródromo entre os projetos apontados como atrasados
Sobre os projetos municipais, identifica “intervenções atrasadas, suspensas ou com avanço inferior ao previsto”, nomeadamente no Parque Verde Urbano, na valorização do Aeródromo da Serra da Estrela e na criação ou qualificação de espaços empresariais.
Na sua análise, estes constrangimentos “resultam de uma antecipação insuficiente de riscos, de uma dependência excessiva de fundos externos e do peso de compromissos herdados do mandato anterior”.
Na discussão do Orçamento para 2026, Paulo Hortênsio recorda que o PSD “alertou para o impacto de compromissos superiores a 15 milhões de euros e para a redução da autonomia financeira municipal”, que, segundo os números apresentados pelo partido, “passou de 51% em 2024 para 38% em 2026”. Para Paulo Hortênsio, estes fatores “limitam a margem real do Município para novo investimento e exigem maior rigor na definição de prioridades”.
O vereador resume a posição do PSD numa ideia: “Não basta manter projetos em curso: é necessário assegurar execução, prazos e resultados mensuráveis”.
Freguesias precisam de respostas regulares
A coesão territorial é outra das preocupações apontadas pelo líder da oposição. Paulo Hortênsio defende que “o concelho não pode ser governado apenas a partir da cidade” e considera que as freguesias “precisam de respostas regulares” em áreas como vias, abastecimento de água, saneamento, espaços públicos, equipamentos coletivos, transportes, proteção civil e serviços de proximidade.
Apesar de reconhecer que “houve apoios e obras, mas muitas vezes sem um critério claro de priorização”, afirma que “persistem problemas de manutenção, lentidão na resposta às necessidades locais e a ausência de um modelo estável de escuta e planeamento com as freguesias”.
Como alternativa, o PSD propôs retomar as reuniões de Câmara descentralizadas, com uma periodicidade mínima mensal e passagem por todas as freguesias ao longo de dois anos. Paulo Hortênsio considera que a medida permitiria “aproximar a decisão pública de quem vive os problemas no terreno e reforçar a responsabilização territorial”.
Sobre o funcionamento dos órgãos autárquicos, classifica-o como “formalmente correto”, mas entende que “pode e deve ser mais transparente, mais participado e mais aberto ao debate prévio das grandes opções municipais”.
O vereador aponta “limitações no acesso atempado à documentação de suporte às reuniões de Câmara”, afirmando que o PSD “tem cumprido o seu papel de oposição construtiva: apresenta alternativas, questiona propostas, fiscaliza a execução e procura contribuir para melhores decisões”.
Paulo Hortênsio aproveita para reclamar um espaço de trabalho para os eleitos nos Paços do Concelho, “melhorar o acesso atempado à informação, reforçar a fundamentação técnica das propostas e demonstrar maior disponibilidade para acolher sugestões da oposição”.
“A democracia autárquica ganha quando a maioria encara a oposição não como adversária, mas como parte do controlo público e da procura de consensos para o concelho”, afirma.
Inverter a perda de dinamismo demográfico e económico
Para Paulo Hortênsio, o maior desafio de Seia é “inverter a perda de dinamismo demográfico e económico, criando condições para que os jovens possam estudar, trabalhar, habitar e construir o seu futuro” no concelho.
Para isso, considera essenciais o “emprego qualificado, habitação acessível, serviços públicos fortes, acessibilidades eficientes e uma oferta cultural, desportiva e de lazer capaz de fixar pessoas”.
Entre as prioridades que apresenta estão a “qualificação e promoção das zonas empresariais, a definição de uma estratégia local de habitação, começando pelo inventário dos imóveis devolutos, a valorização do aeródromo como ativo de desenvolvimento, a criação de uma estratégia própria de turismo em articulação com a Escola Superior de Turismo e Hotelaria, o reforço da prevenção de incêndios e a resiliência do território e a aproximação dos serviços municipais às freguesias”.
Na perspetiva do líder da oposição, estas medidas exigem “execução efetiva e planeamento plurianual”, sob pena de “continuarem a ser apenas intenções”.
Para o final do mandato, em outubro de 2029, Paulo Hortênsio gostaria de apresentar três resultados concretos: uma rede viária e de infraestruturas significativamente requalificada, acompanhada por um plano permanente de manutenção para todas as freguesias; uma estratégia real de emprego, habitação e desenvolvimento económico; e uma administração mais próxima dos cidadãos, com reuniões descentralizadas regulares e um plano de execução transparente.
Para alcançar estes resultados, o PSD defende a “substituição da lógica do anúncio pela lógica da execução, através de planeamento plurianual, candidaturas preparadas com antecedência, contratação pública mais célere e acompanhamento rigoroso das obras”.
PSD prepara programa municipal para 2027
Na resposta adicional sobre as propostas apresentadas pelo partido durante este primeiro ano, Paulo Hortênsio destaca a “afirmação da marca Seia, a defesa da FIAGRIS, a realização de reuniões descentralizadas e o reconhecimento de pessoas naturais do concelho que se distinguem dentro e fora da nossa terra”. Sublinha, contudo, que a promoção externa deve ser acompanhada “de políticas que apoiem o comércio local, promovam um turismo de qualidade, facilitem o acesso à habitação, reforcem os cuidados de saúde de proximidade e criem condições para atrair e fixar população”.
Na área da transparência, defende que as propostas submetidas aos órgãos municipais “identifiquem claramente as rubricas orçamentais, os calendários de execução e os compromissos assumidos”. Refere que a Câmara passou entretanto a incluir o número de cabimento ou a rubrica orçamental nas propostas, “reconhecendo a importância dessa informação para uma maior clareza e transparência documental”.
O vereador aborda ainda a situação da APdSE, defendendo “uma avaliação independente dos custos da água adquirida pela empresa e da sustentabilidade do atual modelo de concessão”, para evitar que “eventuais encargos adicionais sejam transferidos para as famílias e para o Município sem que sejam devidamente explicados os seus fundamentos, avaliadas as consequências e discutidas outras soluções possíveis”.
Paulo Hortênsio anuncia também que o PSD irá apresentar, para 2027, um programa municipal assente em “medidas concretas, com prazos definidos e resultados que possam ser avaliados”. Segundo o vereador, o documento será construído em diálogo com presidentes de junta, instituições, associações e população, “porque as decisões sobre o concelho não podem continuar a ser tomadas apenas dentro dos Paços do Concelho”.
“A proximidade não se demonstra pelo número de reuniões realizadas na Câmara, mas pela disponibilidade para ouvir quem vive nas freguesias, conhecer os problemas no terreno e encontrar respostas concretas”, refere. Caso as preocupações e propostas do partido continuem a não ser acolhidas, Paulo Hortênsio afirma que o PSD “continuará a defender uma alternativa de governação assente na proximidade, na transparência e na responsabilidade, com regras claras e compromissos concretos” para todas as freguesias do concelho.
